Estratégias inteligentes e o exercício justo da autoridade
são formas eficazes de enfrentar a indisciplina.
A indisciplina, dizem educadores de todo o país,
é o maior problema da sala de aula - e da escola. Porém essa realidade
(apontada em pesquisa feita pela Fundação Victor Civita e pelo Ibope com 500 professores)
está longe de ser a verdadeira responsável pela dificuldade de ensinar: o que,
de fato, impede o trabalho docente é a falta de adequação do processo de
ensino. É isso que mostra a reportagem de capa de NOVA ESCOLA de outubro. A
revista traz ainda o projeto institucional Repensar a Indisciplina, com
consultoria de Ana Aragão, professora da Faculdade de Educação da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp).
Partindo do princípio de que as estratégias de
repressão usadas por muitas escolas são pontuais, imediatistas e ineficazes, a
revista aponta soluções para encarar o problema. Longe de ser um manual, esses
passos são o ponto de partida para um trabalho que requer o envolvimento de
toda a equipe. Confira um resumo das recomendações dos especialistas
consultados por NOVA ESCOLA.
Distinguir as regras
A indisciplina é a transgressão de dois tipos de
regra: as de natureza moral (baseadas em princípios éticos, que visam o bem
comum, e por isso valem para todas as instituições e para qualquer situação,
como não bater, não xingar e não mentir) e as convencionais (que variam de
escola para escola, como as que se referem ao uso de celular, uniforme e boné).
Com frequência, os regimentos escolares erram ao colocar essas duas situações
em um mesmo patamar. É importante distingui-las para entender melhor a
indisciplina e lidar com ela.
Equilibrar a reação
Pesquisa com 55 diretores realizada por Isabel
Leme para a Universidade de São Paulo, em 2006, mostrou que a gestão de
conflitos é vista por 85% deles como fundamental para garantir a paz na escola.
Mas, alertam os especialistas, o que se vê na prática é menos uma abordagem
para entender o problema (e lidar com ele) e muito mais a tentativa de evitar
qualquer distúrbio. Quando uma situação foge do controle imposto, a reação é
mandar os alunos para a diretoria. O caminho sugerido em NOVA ESCOLA é outro:
dialogar sempre, ouvindo as partes e demonstrando respeito pelos valores de
cada um.
Conquistar a autoridade
Toda vez que se tenta impor a disciplina com
autoritarismo, surge a revolta. Com mais conhecimento, todo professor adquire
segurança em relação aos conteúdos didáticos e aprende a planejar aulas
eficazes. Pode parecer simples, mas isso é essencial para manter a disciplina e
fazer com que todos aprendam. "É preciso diversificar a metodologia, pois
interagimos com alunos conectados ao mundo de diferentes maneiras", diz
Maria Tereza Trevisol, professora da Universidade do Oeste de Santa Catarina,
campus de Joaçaba, a 371 quilômetros de Florianópolis.
Incentivar a cooperação
Esforçar-se para construir um clima escolar de
qualidade, no qual os estudantes sejam respeitados e aprendam a respeitar, traz
recompensa: um comportamento adequado porque todos têm consciência de seu papel
na escola e não por medo de castigos. Nessa situação, professores e gestores
são vistos como figuras de autoridade moral e intelectual, capazes de
negociações justas com a garotada (nunca autoritárias).
Agir com calma
Em uma situação de indisciplina, é preciso, sim,
manifestar contrariedade. Sem exaltações, mostrar ao aluno que todo o grupo é
prejudicado vai ajudá-lo a perceber as consequências de suas ações e aprender
como agir em outras situações similares.
Ficar sempre alerta
Cabe à escola cultivar um ambiente de cooperação e
respeito, pois é de esperar que casos de indisciplina surjam sempre. Mesmo com
a equipe capacitada para agir de forma mais confiante em relação ao problema,
sempre haverá novos professores e alunos, que precisarão de tempo para se
adequar a essa maneira de encarar os conflitos.
Estimular a autonomia
Às vezes, os alunos agem de forma indisciplinada
para demonstrar que alguma regra não funciona. Em alguns casos, eles querem
chamar a atenção para as próprias ideias. Ao conviver num ambiente pautado pelo
respeito e pela negociação das normas, os estudantes aprendem a tomar decisões
responsáveis.
Nova Escola